quinta-feira, Abril 24, 2014

Se isto não é asfixia, o que é a asfixia?


Faz depois de amanhã uma semana que foi para o ar o programa Voz do Cidadão, no qual o provedor do telespectador da RTP criticou sem eufemismos a Direcção de Informação da televisão pública por não estar a respeitar o formato acordado para A Opinião de José Sócrates: tendo sido anunciado como de opinião, o programa «pressupõe que o comentador faça as considerações que entende sobre temas da actualidade sem necessitar de contraditório», o qual terá de acontecer «em espaços distintos da programação, de debate ou de entrevista». Por isso, o provedor instou a Direcção de Informação da RTP — recentemente empossada — a fazer «regressar à sua forma original» o espaço de opinião de José Sócrates.

Tendo-me comprometido a voltar ao tema quando as críticas contundentes do provedor do telespectador da RTP estivessem disponíveis no site da RTP, verifico que isso ainda não aconteceu. Será que a Direcção de Informação da RTP quer silenciar o provedor?

Potezinho


O Governo quer concessionar o Oceanário de Lisboa a privados. Esta é uma das medidas previstas no plano para reduzir a despesa em 1400 milhões de euros em 2015. Acontece que o Oceanário dá lucro, pelo que nem o propósito de reduzir a despesa justifica esta medida. Mesmo assim, pergunta-se:
    • O montante a pagar pelo concessionário é superior ao lucro previsto para o Oceanário para o período da concessão?
    • Que actividades vão ser permitidas no futuro ao concessionário: baptizados, aniversários e casamentos?
Por este andar, nem o cavalo de D. José escapa ao vendaval do Estado mínimo dos estarolas.

ADENDA — Assunção Cristas, ministra do Ambiente, ao anunciar a extinção da Parque Expo, tinha deixado uma certeza: o Oceanário será mantido na esfera pública pela "função relevante ao nível da economia do mar". Como agora se vê.

Lançamento


​A Livraria Figueirinhas e Irene Pimentel convidam para o lançamento do livro HISTÓRIA DA OPOSIÇÃO À DITADURA (1926-1974), da autoria de Irene Flunser Pimentel que terá lugar no auditório da FNAC COLOMBO, no próximo dia 30 de Abril, pelas 19 horas.

A apresentação da obra será feita pelo Professor António Reis.

quarta-feira, Abril 23, 2014

Sócrates afundou os países da periferia, Passos salvou-os a todos

The Economist [via Penélope]

Luís Montenegro conseguiu mostrar-se, no debate parlamentar de hoje, pasmado com a descida dos juros da dívida, e só por um triz não agradeceu a Passos Coelho a redução que se vem verificando nos outros países da periferia. A maioria dos media não lhe fica atrás nos encómios.

Isto acontece quando se sabe que o BCE vem dando sinais de que amparará os países da zona euro em dificuldades, o que leva os investidores a fugir, na hora actual, da instabilidade dos países emergentes, produzindo milagres simultâneos (ou miragens, como o Wall Street Journal se refere hoje à situação portuguesa) em Atenas, Dublin, Lisboa, Madrid, Roma...

Mas, mesmo assim, desde que se observe com algum rigor, nem tudo o que luz é ouro. Num contexto de inflação negativa (de -0,13% no primeiro trimestre), só doses cavalares de propaganda nos podem distrair da distância que vai entre as taxas de juro nominais e as taxas de juro reais na colocação da dívida. Veja-se aqui:
    • Hoje — taxa nominal: 3,575% / taxa real: 3,7%;
    • Janeiro/2011 — taxa nominal: 6,72% / taxa real: 3,12%;
    • Outubro/2006 — taxa nominal: 3,994% / taxa real: 1,274%;
    • Outubro/2005 — taxa nominal: 3,35% / taxa real: 0,66%.

Perante estas taxas de juro, o que é que o Governo e os media concretamente festejam?

Porque é que o Correio da Manha mente tanto?


A Associação 25 de Abril desmente a «falsidade da notícia» do Correio da Manha:
    «Desmentindo a notícia publicada pelo jornal "Correio da Manhã" na última página da sua edição de 23 do corrente (hoje), informamos que mantemos a decisão de não comparecer na sessão solene da Assembleia da República, comemorativa dos 40 anos do 25 de Abril.

    Perante a falsidade da notícia, que lamentamos profundamente, decidimos não tecer qualquer comentário.

    Relembramos que se mantém a homenagem aos Militares de Abril falecidos, na pessoa de Fernando Salgueiro Maia, no dia 25, às 11h00, no Largo do Carmo, seguida de intervenção de Vasco Lourenço e de homenagem, na rua António Maria Cardoso, aos cidadãos assassinados pela PIDE/DGS no dia 25 de Abril de 1974.»

CDS não entra

«Até eu»


Diálogo entre um jornalista e o ministro da Economia em 4 de Março passado, em Milão, no final da visita que Pires de Lima fez às empresas portuguesas presentes na maior feira mundial de calçado:
    — Senhor ministro, calça Portugal?
    — Às vezes calço Portugal - depende, tem dias!
    — Isso quer dizer que nem sempre calça sapatos portugueses, certo?
    — Todos nós temos a oportunidade de comprar mais português, como é evidente.
    — Mas neste momento calça sapatos portugueses? Teve esse cuidado?
    — Neste momento? Não.

Hoje, numa conferência sobre “A contribuição da indústria para o desempenho global da economia”, Pires de Lima, após voltar a referir a indústria nacional de calçado como um sector “exemplar” em Portugal, rematou: “Até eu já tenho sapatos portugueses!

A aristocracia do Caldas a caminho da plebeização.

Dívida e pequenos aforradores

• Pedro Nuno Santos, Dívida e pequenos aforradores:
    «Alguns defensores de uma reestruturação da dívida pública que apenas altere maturidades e taxas de juro – a que chamam de renegociação – usam argumentos, que sem perceberem, põem em causa os seus próprios objectivos. Afirmam que uma reestruturação com “haircut” no capital implicaria perdas para os portugueses. Esta afirmação comporta dois erros grosseiros que exigem clarificação: primeiro, alterar taxas de juro e maturidades da dívida detida por residentes também implica perdas a esses residentes, por exemplo, uma extensão das maturidades em 40 anos representaria uma corte (haircut) de 74% para o credor. Imagine-se o que seria para um pequeno aforrador que investiu parte das suas poupanças em Certificados de Aforro e de Tesouro receber o capital investido 10, 20 ou 40 anos depois da data inicialmente prevista? Ou passar a ser remunerado por uma taxa de juro mais baixa do que aquela que remunera depósitos a prazo? É óbvio que para um pequeno aforrador um “haircut” na taxa de juro ou um alargamento das maturidades é tão ou mais penalizador que um “haircut no capital investido; segundo, aquela afirmação confunde banca comercial portuguesa com os portugueses em geral. Quem defende uma reestruturação “a sério” exclui sempre os pequenos aforradores e a Segurança Social dessa mesma reestruturação, envolva ela taxas de juro, maturidades ou capital. (…)»

Construir na Europa as novas alianças de que necessitamos

• Fernando Medina, Abril:
    «(…) o pior, é que o estado da Europa não resulta do domínio temporário de uma qualquer variante ideológica, afastável em eleições. Ela corresponde a uma fractura profunda e em alargamento entre os estados do Norte e estados do Sul, ou noutra formulação, entre estados credores e estados devedores, em que os primeiros têm sucessivamente demonstrado não ir abdicar das vantagens que a situação actual lhes trouxe.

    Isto significa que a visão simples (no caso de muitos, simplista) com que o interesse nacional foi formulado durante largo tempo no nosso país "o que é bom para a integração europeia é bom para Portugal", não faz hoje (se é que alguma vez fez) qualquer sentido e necessita ser substituída por uma nova visão. Uma que alargue os horizontes de enquadramento do nosso país e que ao mesmo tempo construa na Europa as novas alianças de que necessitamos. No fundo, uma visão capaz de orientar a acção, nos múltiplos momentos que os próximos anos e décadas seguramente trarão na recomposição da União Europeia que hoje conhecemos.»

A bolha

• Hugo Mendes, O sucesso da bolha:
    «Se um país com dívida acima dos 170% do PIB ao fim de 6 anos de depressão e com quase 30% de desemprego atrai investidores, então o seu comportamento está totalmente desligado da realidade económica. Com os mercados financeiros inundados de liquidez e na ausência de oportunidades de investimento rentáveis, a procura pela dívida da periferia gerou uma verdadeira bolha, agora que os investidores assumem que o BCE não deixará nenhum país sem protecção em caso de necessidade.

    (…)

    Se queremos comparar as condições de financiamento, não podemos ficar pelas taxas nominais. No último trimestre de 2005, o IGCP fez três leilões a 10 anos, angariando, em média, €900 milhões a um juro de 3,35%; a diferença entre os leilões de 2005 e o de hoje estará na diferença entre a taxa nominal e a taxa de inflação: no fim de 2005 a variação média anual da inflação era de 2,1%, enquanto que agora está nos 0,3%. Como se espera que este ambiente de inflação muito baixa se conserve por vários anos, só por miopia se pode avaliar este financiamento como "barato". Sobretudo, inflação próxima de zero exigirá a obtenção de saldos orçamentais primários ainda mais altos do que os previstos para reduzir a dívida pública ao ritmo exigido pelas regras europeias nos próximos 20 anos - o que retira qualquer credibilidade ao cenário da trajetória orçamental futura do país.»

Carrega, FMI!
— o apelo de Passos para prosseguir a contra-reforma laboral

• José Pacheco Pereira, Política virtual, política real [hoje na Sábado]:
    «O que é que, segundo o FMI, falta fazer para que o "ajustamento" português seja o "sucesso" absoluto, mesmo que, no fim de contas nenhum dos grandes números, défice e dívida, tenha mudado de forma sustentável, ou não se tenha agravado? Mais do mesmo, dito de modo tecnocrático, que "as ineficiências remanescentes no mercado de trabalho [não possam] aumentar o risco de uma retoma com pouca criação de emprego, à medida que a economia ganha velocidade", ou seja em português corrente, facilitar os despedimentos. Mais ainda: precisamos de baixar mais os salários, garantindo "uma subida substancial na proporção de trabalhadores com reduções dos salários". Precisamos ir mais longe nas "mudanças no código do trabalho feitas através da aplicação do programa", de modo a facilitar os despedimentos individuais, demasiados difíceis para a vontade do FMI. Ao mesmo tempo, deve acelerar-se o fim dos acordos colectivos de trabalho, que, saliente-se, são acordados entre trabalhadores e entidades patronais, para que um novo ciclo de negociações seja "mais condizente com a situação da economia", ou seja, haja menores salários.

    E depois, a cereja em cima do bolo, mais uma vez se defende a redução das indemnizações por "despedimentos ilegais", de modo a aproximarem-se das dos despedimentos legais. Reparem nesta coisa muito interessante desta proposta, o objectivo é que a violação da lei possa ficar mais barata. Isto é que é um estado de direito ! Pensava eu que quem despedia "ilegalmente" não podia, uma vez verificada a ilegalidade, despedir. Mas não, é uma questão de preço: é apenas mais caro despedir "ilegalmente", o que revolta o FMI. Dito de outro modo, podes cometer um crime, pagas é só um pouco mais por isso. Isto não é economia, é "luta de classes". Depois queixem-se.

    O problema é que não há nenhuma indicação de que o que diz o FMI não seja o que Passos Coelho e o seu grupo pensam. Bem pelo contrário. Esta é que é a política real. O resto é virtual.»

O dia em que Lall descobre que há leis a cumprir

• Ferreira Fernandes, O polícia que tratou o FMI como deve ser:
    «No aeroporto, o polícia olhou para o passaporte, olhou para o gordo com cara de bem não transacionável e disse-lhe: "Quer uma entrada limpa?" O gordo não percebeu. O polícia: "É que se há saídas limpas, sem favores, também há entradas limpas. Quer entrar em Portugal limpamente?" O gordo disse que sim. O polícia olhou mais dez vezes para o passaporte e disse: "Estou a fazer a minha 11.ª avaliação... Nome, Subir Lall... Chefe de missão do FMI... É, o senhor tem visto." O gordo, já com soberba: "Claro que tenho!" O polícia, como quem fala da subida do salário mínimo: "Mas é prematuro especular sobre o tema... Que dia é hoje?" O gordo, julgando que números é com ele: "20!" O polícia: "Justamente, o visto de entrada é para o dia 21." Pegou numa calculadora, que dedilhou: "21 menos 20... É, falta um dia para entrar." (…)»

A reconstrução do país à maneira da direita

• Rui Tavares, A futilidade cruel:
    «(...) O que baixou os juros da dívida, então? Como disseram desde o início aqueles que diagnosticaram esta crise como sendo primordialmente uma crise do euro, os juros da dívida baixariam a partir do momento em que a União Europeia tivesse uma estratégia minimamente plausível para segurar a sua moeda. Não foi preciso muito, na verdade: bastou a garantia dada por Mario Draghi de que o Banco Central Europeu faria tudo na defesa do euro para que os mercados acalmassem e a fase aguda da crise passasse. Além disso, tivemos uma enormíssima injeção de liquidez nos bancos europeus — bastante maior do que o que foi emprestado em condições draconianas aos estados. E agora a promessa de que o Banco Central Europeu dará início a uma fase de “auxílio quantitativo” semelhante à que foi levada a cabo nos EUA. Entre outras coisas, foi isso que baixou os juros de Portugal, da Irlanda e até da Grécia. Os portugueses sofreram para manter uma história, nada mais.

    Se há lição que devam tirar destes acontecimentos todos os progressistas, portugueses e europeus, é que conta quem está no poder. Quem está no poder impõe políticas, impõe sacrifícios e, no fim, impõe uma narrativa. Os juros podem ter baixado exatamente pela razão que a oposição sempre disse que os faria baixar. Mas quem se aproveitou da subida dos juros para forçar a austeridade, desmantelar o estado social e de forma geral “ir além da troika”, também vai aproveitar-se da descida dos juros para proclamar vitória. E assim sucessivamente, enquanto a esquerda (pelo menos a portuguesa) continuar a defender o estado, mas a entregá-lo de mão beijada à direita.

    E essa lição vai ser mais importante ainda nos anos que aí vêm: anos de reconstrução. Mais uma vez, conta quem está no poder. Se for a direita neoliberal, o país será “reconstruído” à maneira dela, com privatizações na saúde e no ensino público, e uma segurança social espartilhada e descapitalizada. (…)»

«Há limites para o que um Presidente pode dizer»

Constança Cunha e Sá, na TVI 24 (vídeo):
    «Aquilo que o Presidente da República chama insultos, crispações, faz parte da vida democrática normal. O que não é normal é termos um Presidente da República que não se considera político. O cargo de Presidente da República é um cargo eminente político e não faz qualquer sentido que o Presidente da República gaste todo o seu tempo a pensar na economia e considere que a actividade política é um fait-divers. Há limites para aquilo que pode dizer um Presidente da República».

Filhos do 24 de Abril

• João Cardoso Rosas, Memórias, visões e invenções:
    «(…) A segunda visão é dos que esperavam que o 25 de Abril iria instituir um Estado de direito democrático e social, no qual os cidadãos tivessem verdadeiras oportunidades para participar na vida política e condições de vida condignas numa sociedade mais justa. Esta visão era partilhada por muitos, desde Mário Soares a Freitas do Amaral, passando por Sá Carneiro. Foi esta visão que acabou por impor-se. No entanto, a visão vencedora quanto ao significado da revolução de 25 de Abril acabou por ser posta em causa mais recentemente, não tanto por causa da crise e da política de austeridade – que aconteceu já noutras fases -, mas devido à existência, pela primeira vez em 40 anos de regime democrático, de um poder político ideologicamente adverso aos aspectos sociais e mais democráticos de Abril. Por isso inventaram agora um novo sentido para o 25 de Abril.

    Este não teria sido nada daquilo que as duas visões anteriores pensavam. O 25 de Abril serviria apenas para a instauração de um regime liberal-democrático, mas mais liberal do que democrático. Por isso a verdadeira interpretação de Abril é a de um golpe de Estado que deveria ter propiciado uma Constituição mínima, expurgada dos valores da participação democrática e da justiça social que os actuais detentores do poder político consideram “socialistas”, ou mesmo “esquerdistas”. É claro que, se esta interpretação vingar, o 25 de Abril histórico e documentado nunca terá existido.»

terça-feira, Abril 22, 2014

Uma derrota para o Governo (e, em particular, para a Miss Swaps)

— E esta, Pedro?! Agora temos de aborrecer os bancos?

O Tribunal da Relação de Lisboa determina que os swaps do Barclays podem ser contestados em Portugal. Os particulares mexeram-se e venceram. O Governo arrasta os pés, fingindo que se mexe.

Depois do regabofe com Machete, a bagunça com Rato


Miguel Monjardino renunciou, há cerca de um mês, ao cargo de curador da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), lugar para o qual tinha sido nomeado em Novembro pelo alegado primeiro-ministro. A FLAD é agora presidida por Vasco Rato (à esquerda na fotografia).

NOTA: para perceber o que está em causa, vale a pena relembrar as palavras do embaixador dos EUA em Lisboa, Allan J. Katz, sobre a gestão da FLAD, parcialmente reproduzidas no post intitulado Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso laranjal.

En quatre ans, les coupes budgétaires ont entraîné
des dysfonctionnements dans les hôpitaux


Un nombre croissant de Grecs exclus du système de santé:
    «Une étude de la très sérieuse revue scientifique britannique The Lancet, publiée le 21 février, a établi un lien direct entre crise économique et dégradation de la santé des Grecs. La part du budget affectée à la santé est passée de 10,03 % du PIB en 2009 à 9,16 % en 2012, selon l'autorité statistique hellénique. Pour le gouvernement, cette baisse traduit un effort de rationnalisation et de lutte contre le gaspillage et les abus observés notamment dans les dépenses pharmaceutiques. Des sommes qui s'élevaient en 2009 à 5,6 milliards, et ramenées en 2013 à 2,37 milliards.

    Mais avec 10 000 lits supprimés, neuf hôpitaux transformés en simples centres de soins ou encore avec le système de santé primaire en pleine réforme, c'est toute l'offre de santé publique qui se rétrécit depuis quatre ans, y compris pour les patients bénéficiant de la sécurité sociale. Seule solution, pour les Grecs pouvant se le permettre : souscrire une assurance privée, passeport pour l'excellent réseau de cliniques privées du pays. On peut parler en Grèce d'un système de santé à deux vitesses.»

Um gabinete peculiar

José Cesário, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, faz umas nomeações insólitas para o seu gabinete:
    • Foi pescar uma assistente administrativa ao Brasil, empossando-a como adjunta, com um estatuto remuneratório que já implicou dois despachos;
    • Depois, recrutou em Angola um «técnico especialista» que esteve ligado à afamada Tecnoforma de Passos & Companhia, a quem o Estado não paga nada pelos bons serviços que, à distância, presta ao país;
    • Hoje, recrutou uma «técnica especialista» para desempenhar «funções de assessoria na área das empresas e nas relações com as comunidades portuguesas nos países latino-americanos e mundo árabe», com a particularidade de também não haver encargos para o Estado com a sua nomeação, circunstância que, conjugada com o facto de não constar do seu curriculum ter exercido qualquer actividade profissional, suscita a dúvida sobre como obtém o ganha-pão.
A menos que se trate de uma forma de legalizar uns passeios turísticos, tudo isto é bizarro. E não estará Cesário a invadir o quintal de Luís Campos Ferreira (a Cooperação), que, se calhar, nem dá por isso?

Um modelo de hipocrisia


    «[São as empresas] e não as intrigas, as agressividades, as crispações, os insultos entre agentes políticos, que promovem o crescimento económico, a criação de emprego e a conquista de novos mercados.»

Este homem — que antipatiza com intrigas — não impediu a inventona de Belém, uma intriga que efectivamente configurou um atentado contra o Estado de direito.

Este homem — que se mostra contra as agressividades, as crispações, os insultos entre agentes políticos — está a desmentir os discursos e as declarações avulsas que ele próprio fez até conseguir instalar a direita no poder, tendo chegado a convocar os jovens para manifestações entretanto marcadas.

Como a direita no poder comemora o 25 de Abril

O destaque dado ao 25 de Abril no site do Governo

O Presidente da República promove uma conferência nos dias 9 e 10 de Maio, que nada tem a ver com o 25 de Abril. O Governo lança um programa de festas, coordenado pelo ministro da propaganda, que se arrasta ao longo do ano, abafando os aspectos marcantes da Revolução e ignorando os principais intervenientes, em especial os capitães de Abril.

O grande salto para a passerelle

Muitas universidades procuram internacionalizar-se, poucas atingem o grau de excelência. Conseguiu-o o ISEG, sob a clarividente liderança de João Duque. Em lugar da «maçadoria» dos ciclos de Kondratiev, Duque oferece o fausto da princesa Masha Magaloff.

É assim que, exactamente no período em que a troika abandona formalmente o país, deixando atrás de si um rasto de destruição e pobreza, João Duque antecipa o futuro e abalança-se a promover um curso de luxo — pela módica quantia de 1950 euros. É do que o país precisa. É o que a autonomia universitária consente.

Manuela e o cinema

Tubo de Ensaio (Bruno Nogueira e João Quadros):
    «(…) Exacto, o senhor da buzina fez o que podia para evitar o desastre. Mas cometeu um erro, porque achou que estava a buzinar para conseguir quebrar o suposto raciocínio da Manuela. Ora esqueceu-se que o discurso de taxista tem esta facilidade de ser interrompido por uma buzinadela ou uma escarradela pela janela e retomado exactamente no ponto onde estava. (…)»

segunda-feira, Abril 21, 2014

Vice-pantomineiro no parlamento



Hoje: intervenção de Pedro Marques na audição do vice-pantomineiro Paulo Portas na Comissão Eventual para Acompanhamento das Medidas do Programa de Assistência Financeira a Portugal.

Cumprir o mandato até ao fim

Cinco dias de festejos, sff


Agora é só deslizar e chegar ao Largo do Carmo

25 de Abril – 11 horas

Lavar a cara ao BPN

Outra saída limpa

Dívida pública,
posição dos portugueses
e liberdade de imprensa

O jornalista deu-lhe este título (ontem no Negócios online):


A Cofina mandou substituir o título (hoje na edição em papel):


Independentemente de figurar no título da notícia o objectivo (a reestruturação) ou o método para o atingir (a renegociação), o que importa é que a maioria do povo português entende que a crise (primeiro a de 2008 e, depois, a do euro) que abalou o país, agravada pela estratégia de «ir além da troika» do Governo, tornou insuportáveis os actuais montantes, juros e prazos de pagamento da dívida:
    «A maioria dos portugueses que teve conhecimento do chamado manifesto 74 revê-se no apelo que aí é feito à reestruturação da dívida. Segundo uma sondagem da Aximage, realizada para o Negócios e para o “Correio da Manhã”, quase dois terços dos portugueses defendem o documento

O homem providencial que nos chega das contabilidades


A estratégia de empobrecimento em curso preocupa-o? Um euro disfuncional incomoda-o? O assalto ao pote perturba-o? Uma comunicação social cada vez mais suave transtorna-o? Nem às paredes o confessa. Numa entrevista extensa à TSF e ao DN (quatro páginas), Rui Rio não arranjou uma oportunidade para expor o que pensa da situação económico-social do país, da Europa, do saque e da asfixia crescente.

O nicho de Rui Rio é o sistema político, a que ele chama regime. Quer mudanças profundas através «de pequenas e de grandes medidas»: a substituição do financiamento dos partidos por uma fundação para arrancar os seus militantes do mundo das trevas; uma reforma dos partidos; umas cadeiras vazias na Assembleia da República em representação da abstenção; um reforço dos poderes presidenciais.

Não é a circunstância da direita no poder estar a virar do avesso o regime democrático que o tira do sério. É a descredibilização dos políticos que o aborrece: «Temos as instituições a perder credibilidade. Não vou dizer que não têm nenhuma, mas estão profundamente abaladas no seu prestígio. A Assembleia da República, o Governo, os tribunais, os autarcas... Restava uma, que diversas vezes referi, a Presidência da República. Hoje, já nem essa resta.» É por isso que Rio não se coíbe de fazer um asséptico paralelismo entre o Estado Novo e a República: «Quando o Estado Novo caiu, dizíamos: "Caiu de podre, estava velho." Tinha 41 anos: de 1933 a 1974. Este tem 40 anos

Perante um «poder político fraco» que «deriva da falta de credibilidade», Rio deseja que ocorram dois movimentos em simultâneo.

Por um lado, vindo de baixo, uma enorme pressão da sociedade e da «base dos partidos [para] demonstrar um grande descontentamento interno» em relação aos políticos.

Por outro lado, vindo de cima, «Era muito positivo se os partidos se conseguissem entender quanto a uma reforma do regime. Eventualmente para a governação também, mas acima de tudo para [a mudança d] o regime tem de ser! E, num quadro alargado, se esse entendimento, dada a relevância do Presidente da República para este efeito, passasse também por uma situação em que o candidato fosse comum entendimento, dada a relevância do Presidente da República para este efeito, passasse também por uma situação em que o candidato fosse comum (…)

Rui Rio faz parte do sistema político, mas começa a falar de fora dele, acusando-o de ser composto de gente de «qualidade» duvidosa. Segundo ele, é a impreparação dos políticos que conduz a uma «governação [que] cria problemas, por ser má - e, acima de tudo, não consegue resolver os problemas que a sociedade tem, ou resolve-os mal

Os três mandatos à frente da Câmara do Porto puseram em evidência que Rio não convive sem sobressaltos com a lógica democrática, estando convencido de que, por graça divina, lhe foi revelado esse valor absoluto e algo difuso a que chama «interesse público», cuja prossecução deve estar reservada a uma casta de iniciados na ciência da governação, que ele manifesta disposição para liderar. Para fazer o quê? Não diz. Mas eu recordo-me de que Rui Rio foi um campeão do austeritarismo avant la lettre (aqui, aqui, aqui e aqui).

«Esta história dos cortes está a atingir proporções inacreditáveis»


Constança Cunha e Sá, na TVI 24 (vídeo):
    «Eu acho que toda esta história dos cortes, em particular das pensões, está a atingir proporções perfeitamente inacreditáveis. Vamos fazer um pequeno historial do que se tem passado, nomeadamente em Abril. Primeiro, os cortes que eram temporários passaram de repente a definitivos. O Governo que durante três anos disse que estes cortes eram para uma situação de emergência, deu o dito por não dito e passou a dizer que eram definitivos. Isto de um dia para o outro sem que ninguém tivesse uma explicação para esse efeito, o que prova que o Governo tem um discurso para o Tribunal Constitucional, a quem diz que os cortes são provisórios, tem um discurso para os credores, a quem diz que são definitivos, e não tem discurso nenhum para os portugueses. Portanto, Passos Coelho não teve vergonha nenhuma de depois de três anos a andar a dizer que os cortes eram provisórios, vir dizer de um dia para o outro que eram definitivos».